UMA MAÇÃ POR SEMANA!

Foto: Abhijit Tembhekar from Mumbai, India
Créditos Foto: Abhijit Tembhekar from Mumbai, India / Wikipédia

Segundo de quatro filhos fiquei órfão de pai aos quatro anos de idade. Minha mãe tinha apenas 25 anos. Entregou seu marido com 27 anos e nossa irmãzinha mais nova, com apenas cinco meses, no dia do enterro de nosso pai. Ficou com três meninos: meu irmão mais velho com seis, o mais novo com dois e eu com quatro anos. Nunca quis casar-se novamente e viveu seus 73 anos como uma das mais vitoriosas mulheres que conheci. Especializou-se como costureira de calçados. Trabalhava sozinha para “criar” os filhos, saindo às 6 horas da manhã, retornando às 21 horas. Morávamos com os avós paternos. Mesmo antes de freqüentar a escola, éramos responsáveis pelos serviços domésticos, cuidado dos animais, plantação em terrenos arrendados. Desde a limpeza geral, o cultivo do jardim na frente e da horta nos fundos da casa, ficava por conta dos três “Guris”, monitorados pela avó com o chicote na mão. Somente depois de todas as tarefas cumpridas, tínhamos uma hora diária de diversão. Brincávamos no quintal da casa e quando o serviço era aprovado, tínhamos o privilégio de jogar futebol num campinho gramado em frente de nossa casa.

Nos finais de semana, minha mãe se encarregava da roupa: lavar e passar. Aos sábados, bem cedinho, andava do Bairro Liberdade onde crescemos, na cidade de Novo Hamburgo (RS) até o Centro – um trajeto de quatro quilômetros – a pé, para comprar o que não cultivávamos na horta de casa. Embora tivéssemos um rico pomar próximo à estrebaria das vacas, do cavalo, do chiqueiro de porcos e do galinheiro, nem todas as frutas vingavam.

A espera do retorno de nossa mãe parecia interminável. Contávamos os minutos, porque cada sábado, entre as compras, ela trazia três grandes maças vermelhas, daquelas bem brilhosas: uma para cada filho. Para nós, a maçã era um “luxo” porque se tratava de uma das frutas mais caras da época. Ganhávamos cada um, uma maçã vinda de Veranópolis, cidade bem distante de Novo Hamburgo, o que a encarecia.

Uma de nossas alegrias se resumia a Uma maçã por semana! Eu era tão agradecido ao sacrifício de nossa mãe, reconhecendo com quanta dificuldade nos proporcionava Uma maçã por semana, que se tratava de uma fruta possível apenas na mesa das famílias economicamente privilegiadas, que comia a minha – a minha maçã – bem devagar. Eu a escondia debaixo da cama e ela chegava a ficar preta, pois durava do sábado à terça-feira. A cada mordida, eu rezava uma Ave Maria de gratidão, valorizando o esforço e a dedicação de oferecer o possível, com um salário mínimo, suado mensalmente, por minha amada mãe!

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário,
Pe. Gilberto Kasper - Foto : Divulgação / k2 Imagens
Pe. Gilberto Kasper – Foto : Divulgação / k2 Imagens
Docente na Associação Faculdade de Ribeirão Preto do Grupo da UNIESP, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Presidente do FAC – Fraterno Auxílio Cristão e Jornalista.

 

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