Reflexão Semanal com Pe. Gilberto Kasper

 COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS DO

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

 Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

A visão apocalíptica de Daniel ilumina a passagem da Transfiguração de Jesus, seja no seu esplendor divino seja no sentido de que o Eterno Pai vai outorgar ao Filho do Homem todo o poderio universal. Nesta revelação encontramos os indícios da participação, da filiação divina de Jesus com o Pai, e o seu reinado eterno.

O argumento de Pedro em seu testemunho sobre Jesus não se baseia em fábulas, mas em experiências. A fé da Igreja deve ser alicerçada nesta perspectiva, embora existisse uma resistência no meio intelectual de que só a fé será suficiente para que o cristão se mantenha firme em suas convicções religiosas. Mas não é isto o que a história bíblica revela nem a experiência milenar da própria Igreja.

Pedro recorda que no monte Tabor a filiação divina de Jesus foi reafirmada pela voz do Pai. Uma filiação não de adoção como é o nosso caso, mas uma filiação eterna. Nesta filiação se derrama toda a graça e dela recebemos a herança de uma filiação focada na plenitude de Deus feito homem.

Foi assim que aconteceu com Maria. Toda formada nesta presença divina, mas não isenta dos labores da vida. Nossa Senhora soube garantir para si e para a Igreja, Esposa de seu Filho, esta presença contínua de Cristo e ser transmissora desta luz divina aos irmãos quando Isabel fica repleta do Espírito Santo, só com a saudação de Maria (Lc 1,41).

A Páscoa de Cristo se manifesta na comunidade que descobre no rosto desfigurado do pobre o rosto luminoso do Pai. É preciso sair do comodismo e deixar que a glória de Deus se manifeste em nós. Subindo à montanha, somos convidados a ouvir o que Jesus tem para nos dizer e contemplaremos sua face resplandecente.

 

..“Este é o meu filho muito amado,

no qual eu pus o meu amor: escutai-o!” (Mt 17,5).

A transfiguração de Cristo nos sugere que, se escutarmos a palavra do Filho amado do Pai, seremos fortalecidos na decisão de trabalhar por um mundo melhor.

Antes da missão, os apóstolos deviam ser confirmados na fé e introduzidos no conhecimento da verdadeira identidade de Cristo e dos mistérios do Reino. Jesus é o servo sofredor e sua glória passa pela cruz. A exigência é: “escutem o que ele diz!” A glória revelada manifesta-se em estreita vinculação com a obediência à Palavra.

E o que Jesus nos diz, afinal? “Amai-vos uns aos outros…” Será que ainda sabemos amar? Contemplamos filhos matando pais; mães jogando filhos em latas de lixo e córregos; pessoas sendo traficados, de alguma maneira; babás decepando a mãozinha de criança com apenas três meses; jovens morrendo por dez reais; trânsito violento, irresponsável e desrespeitoso, enfim, pessoas parecendo bichos selvagens! Que amor é esse? Enquanto não soubermos como é bom amar gratuitamente, com sabor divino, ficaremos dependurados na cruz, sem chegarmos à Transfiguração de Jesus!

 

O dia do Padre, transferido do dia 4, memória litúrgica de São João Maria Vianney, muito tem a ver com a festa da Transfiguração do Senhor. A vida sacerdotal deve ser um contínuo transfigurar-se em Cristo e por Cristo, mas este slogan pode parecer deveras sentimental e sujeito a equívocos. Ora, cada sacerdote tem sua experiência própria e individual com Cristo sacerdote e é impossível ser cópias uns dos outros. São pessoas escolhidas pela misericórdia de Deus a serviço do povo (Hb 5,1) e jamais a serviço de si mesmos.

 

A Igreja se põe de joelhos frente ao Único e Eterno Sacerdote, para que a concelebração/serviço dos sacerdotes seja duradoura na autenticidade, no entusiasmo e na humildade vocacional.

 

O Papa Francisco tem insistido numa “Igreja em saída, às periferias existenciais”. É lamentável quando não escutamos tal apelo, mas preferimos ser uma igreja triunfalista, ufanista e que não ultrapassa os limites de celebrações solenes e suntuosidades exacerbadas desde vestimentas à decorações, que escondem nosso verdadeiro ministério presbiteral. Se não ouvimos o Papa, será que ouviremos o que o Filho amado nos tem a dizer? Ora, se não ouvirmos Jesus, muito menos viveremos o que nos pede: amá-lo no pobre, no mais surrado pela vida, no enfermo, no idoso e no migrante!

Desejando a todos muitas bênçãos, com ternura e gratidão, nosso abraço amigo,

 

Foto: Rafael Viana
Foto: Rafael Viana

Pe. Gilberto Kasper 

(Ler Dn 7,9-10; Sl 96(97); 2 Pd 1,16-19 e Mt 17,1-9).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Agosto de 2017, pp. 27-30 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum I (Agosto de 2017), pp. 49-53.

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