Reflexão Semanal com Pe. Gilberto Kasper

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

 

Foto: Rafael Viana / TDVIDEO.com.br
Foto: Rafael Viana / TDVIDEO.com.br

No início do Tempo Comum, depois do Natal e antes da Quaresma, lemos o início da missão de Jesus com o chamado dos discípulos, a proposta do Reino. “No ano C, é Lucas quem nos conduz; ele insiste no seguimento radical de Jesus, ensina-nos a orar, a amar, a perdoar, a nos deixar guiar pelo Espírito, a levar em conta as mulheres, a colocar no centro de nossa vida o acolhimento e a preocupação com os pobres…” (Ione Buyst).

Neste segundo domingo, celebramos a manifestação de Deus em Jesus, em Caná da Galileia, no contexto de um casamento e aí Jesus realiza o seu primeiro sinal.

Reunidos pelo Espírito, somos convidados a tomar parte no banquete festivo das bodas de Caná, quando Jesus realiza o seu primeiro sinal. Verdadeiro esposo da humanidade, ele nos oferece o bom vinho que a todos alegra. Sintamos a honra de sermos participantes das núpcias, sinal da aliança de Deus com seu povo.

A comunidade celebrante, noiva de Jesus, nunca será abandonada nem ficará deserta. Na diversidade de dons e carismas, a comunidade Igreja celebra as núpcias com o Cordeiro.

            A exemplo do profeta Isaías, não podemos nos acomodar enquanto a justiça e a liberdade não florescerem. Jesus é o noivo da comunidade reunida. A diversidade de dons, quando postos em comum, é sinal de riqueza na comunidade.

Celebrar a Eucaristia significa renovar o gesto que constitui esta comunidade em povo de Deus. O vinho consagrado, sangue de Cristo e sinal de seu amor pela Igreja, antecipa a festa da nossa assembleia que se torna plena nas núpcias eternas.

O casamento em Caná é o primeiro dos sete sinais, escolhidos pelo evangelista para revelar Jesus como o Messias e Filho de Deus. É o início da manifestação da glória de Cristo que se plenificará, através de sua entrega na cruz. A água, transformada em vinho, é sinal da vida nova, do vinho novo da salvação, que o Senhor oferece de forma abundante como esposo da humanidade.

Os discípulos expressam sua adesão a Jesus, através do acolhimento aos sinais de amor e de salvação. O Senhor permanece fiel à aliança e nos cumula de dons para que possamos colocá-los a serviço da edificação da comunidade, criando relações fraternas. Por meio da fé em Jesus Cristo, formamos um só corpo, no mesmo Espírito.

Maria é modelo de fidelidade à aliança, ao plano de amor de Deus, revelado em Cristo. Com solicitude maternal, ela percebe que “eles não têm mais vinho”. Sua atitude nos ensina a sermos pessoas sensíveis e comprometidas com as necessidades dos irmãos e das irmãs. Maria não cessa de interceder junto ao Filho para que a humanidade alcance a vida em plenitude.

O documento de Aparecida, número 364, convida que “fixemos o olhar em Maria e reconheçamos nela a imagem perfeita da discípula missionária. Ela nos exorta a fazer o que Jesus nos diz (cf. Jo 2,5) para que ele possa derramar sua vida, entregando-a. Junto com ela, queremos estar atentos uma vez mais à escuta do Mestre e, ao redor dela, voltarmos a receber com estremecimento o mandato missionário de seu Filho: ‘Vão e façam discípulos todos os povos’ (Mt 28,19)’”. Escutamos Jesus como comunidade de discípulos missionários, que experimentaram o encontro vivo com ele, e queremos compartilhar todos os dias com os demais essa alegria incomparável.

O encontro com Cristo proporciona experimentar o melhor vinho que salva e dá sentido à nossa festa. Como verdadeiro esposo, Jesus está sempre presente para oferecer o vinho novo, sinal de seu amor e de sua ação libertadora. Somos chamados a distribuir o vinho que o Senhor nos oferece, entre os convidados, para a grande festa da vida. O nosso anúncio deve irradiar a alegria da festa, do banquete do Reino.

Imaginemos esse casamento em Caná. Deve ter sido de um casal pobre. Maria, Jesus e seus Discípulos pobres, foram convidados. Ricos não se misturavam com os pobres. Nem se poderia imaginar que algum pobre fosse convidado à sociedade da época, mais ou menos como é em nossos dias. O vinho era uma bebida nobre e cara, consumida somente em grandes eventos, como núpcias. Os Apóstolos, tendo deixado tudo para seguir o Mestre, aproveitavam de oportunidades como essas, para “tirarem a barriga da miséria”. Eram “bons de copo” e também Jesus bebia com eles, o vinho do casamento. Maria entra em cena: Mãe preocupada; Mulher perspicaz e Discípula confiante no Filho. Do ponto de vista humano, como qualquer mãe, chama a atenção do filho, advertindo-o, quem sabe, de que seus amigos estavam exagerando na bebida. “Eles não tem mais vinho”. Em outras palavras: “peça aos seus amigos, para maneirarem no copo”. Jesus, aparentemente parece grosseiro com a mãe: “Mulher, por que dizes isso a mim? Minha hora ainda não chegou”. Mesmo assim Maria sabe em quem põe sua confiança e vai aos que servem e pronuncia o coração desse Evangelho: “Fazei o que ele vos disser”. E o que Jesus diz? Que participemos do Seu primeiro grande sinal (milagre). Enchamos as talhas de água, que Ele transforma em vinho, o melhor vinho. Nossa participação é apenas água, o resto fica por conta do Senhor. Ainda: Jesus resume seu anúncio evangélico numa única orientação: “Amai-vos como eu vos amo!” E isso não parece ser tão simples assim. Quem ama, se preocupa, promove, fala bem do outro, não inveja ninguém, não engana e nem mente. Eis razões para nossa conversão em nossas relações de Comunidades Eclesiais, Políticas e Sociais.

Conta-se que um casal pobre, preparando-se para o casamento, deixara um barril diante da casa do noivo. Os convidados, conforme costume da época, passavam pelo barril e nele depositavam, ao longo do dia do casamento, sua porção de vinho a ser consumida nas bodas. Ao servir a primeira taça de vinho, o noivo foi ao barril. Qual não foi a surpresa: era pura água. Todos aqueles convidados pensaram a mesma coisa: “Coloquemos água no barril, pois como todos colocarão vinho, ninguém perceberá que colocamos água…” Isso é muito frequente em nossas Comunidades e na Sociedade que vive na hipocrisia das aparências. Tem gente que vai às festas para “tirar a barriga da miséria” e ainda sai com bolsas cheias de docinhos, e há aqueles que não partilham nada, apenas buscam levar vantagem em tudo.

Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço sempre amigo e fiel. Para meu 26º aniversário de Ordenação Sacerdotal, no próximo dia 20, Festa de São Sebastião, Padroeiro de nossa Igreja Catedral e Cidade de Ribeirão Preto, não espero presentes, mas a oração de uma Ave Maria bem rezada, proveniente do fundo do coração, por minha santificação e fidelidade em meu ministério ao serviço gratuito pelo Reino. Escolhi o “silêncio orante no deserto” para agradecer a Deus o dom de minha vocação. Nos encontraremos, portanto, apenas na oração de ação de graças. Que eu saiba oferecer o melhor vinho que o Senhor me concedeu.

(Ler Is 62,1-5; Sl 95(96); 1 Cor 12,4-11 e Jo 2,1-11).

 

Foto: Rafael Viana
Foto: Rafael Viana

Pe. Gilberto Kasper
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Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente na Associação Faculdade de Ribeirão Preto do Grupo Educacional da UNIESP, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Presidente do FAC – Fraterno Auxílio Cristão e Jornalista.

 

 

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Janeiro de 2016, pp. 57-59 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum (Janeiro de 2016), pp. 68-73.

 

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