Comida ultraprocessada domina comércio do Metro-SP; só duas estações vendem fruta, mostra USP

Foto: Agência Brasil / Divulgação/ Flickr /Metrô SP/
Nas estações do Metrô em São Paulo, por onde passam 5 milhões de pessoas por dia, é comum encontrar serviços de alimentação para os passageiros, que veem no trajeto ao trabalho ou à faculdade a oportunidade de se alimentar. Um estudo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP analisou 66 pontos comerciais em 19 estações do Metrô para entender como esse ambiente alimentar pode interferir na alimentação e, portanto, na saúde da população.Os dados apontam que a grande disponibilidade e o baixo custo dos alimentos e bebidas ultraprocessados (de alta caloria e baixo valor nutricional), em comparação com alimentos in natura ou minimamente processados, podem limitar a autonomia dos usuários do transporte que buscam escolhas saudáveis, o que diverge com a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), preconizada pela Constituição.“Para mudar esse cenário, é necessário que se tenha um olhar da saúde pública sob esses espaços para que seja possível a implementação de políticas públicas que auxiliem na promoção da alimentação saudável”, afirma ao Jornal da USP a nutricionista Jessica Vaz Franco, doutoranda pela FSP e uma das autoras do estudo.
 
 

O que se come no Metrô de São Paulo?

As pesquisadoras adentraram o interior das estações do Metrô consideradas mais movimentadas de São Paulo e administradas exclusivamente pelo governo estadual. Por um sistema de checklist, foram analisados quiosques, lanchonetes, lojas e vending machines para quantificar, identificar e caracterizar os alimentos disponíveis, segundo seus atributos, como grau de processamento, preço, variedade (de marca, tipo de embalagem, volume, peso), localização, entre outras métricas.Assim, foi possível descrever o ambiente alimentar das estações. Vale destacar que a coleta foi feita em 2017, quando a linha Lilás ainda era estritamente de administração pública.

 

Os dados mostraram um cenário com alta oferta de alimentos não saudáveis em comparação com os saudáveis. Refrigerantes, por exemplo, foram encontrados em todas as estações, em uma média de oito tipos por estabelecimento – chegando a até 24 variedades do produto em um único comércio.A única opção de bebida saudável era água mineral, presente em todas as estações estudadas, exceto na Tucuruvi, e suco natural da fruta, este encontrado apenas na estação Brás. Para além de bebidas, em grande parte das observações, a água era o único produto saudável disponível para compra.

 

 

O salgadinho de pacote ou biscoito salgado sem recheio,

O bombom e o chocolate em barra e o refrigerante estavam disponíveis em mais da metade dos pontos comerciais (51,5%, 53,0%e 60,6%, respectivamente), conforme o estudo. Eles são, na verdade, misturas de produtos industriais e pouco ou nada têm de alimento; são classificados como ultraprocessados, segundo a classificação alimentar denominada NOVA, que descreve os alimentos por grau de processamento industrial.

 

“A alta exposição de ultraprocessados nas estações do Metrô não possibilita que os usuários diários desse transporte tenham a garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável assegurada e a alta quantidade de propagandas em relação a esses alimentos compromete também a autonomia de escolha”

 
 

Enquanto isso, frutas, que são alimentos in natura (com alto valor nutricional), só foram vistas nas estações Brás e Tatuapé e em apenas 10,0% das lanchonetes e 4,8% das vending machines nessas estações.As hortaliças, que também fazem parte desse grupo, estavam disponíveis apenas como parte de preparações de sanduíches, que foram considerados alimentos não saudáveis, presentes em 70,0% das lanchonetes, 66,7% das cafeterias e 9,5% das vending machines das estações Sé, Luz, Tatuapé, Brás e República. 

Direito e acesso

“A oferta de alimentos no Metrô é um serviço secundário, onde o primário é o transporte. Mas uma vez que há essa proposta alimentar, que seja de uma maneira segura e que garanta também os direitos e respeite a autonomia dos usuários. Trata-se de um espaço público, administrado pelo governo do Estado de São Paulo, o que amplia a importância do estudo.”

A Emenda Constitucional nº 64 inclui a alimentação como um direito social, contido no artigo 6º da Constituição Federal de 1988; esse direito é garantido pela Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), de acordo com a Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Na prática, a pesquisadora explica que o Estado não tem apenas a responsabilidade de promover acesso à alimentação, mas acesso à alimentação de qualidade para a população. Quando se pensa na promoção de saúde pública, estão os impactos dos ambientes alimentares na alimentação, ao passo que o consumo de alimentos acontece também fora das residências: em outros espaços do cotidiano – inclusive no caminho até esses destinos.

 

Foto: Aline Bastos / Divulgação / EMBRAPA
Foto: Aline Bastos / Divulgação / EMBRAPA

 

 

 

Fonte informações: Guilherme Gama é repórter do Jornal da USP / Brasil de Fato

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